A Minha Laranja - Exploração Sensorial

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Prova de Contacto #1  

"Olhos vendados!"
Sentir um objeto sem ver, apura, com toda a certeza, todos os outros sentidos. Não foi a primeira vez que mexi numa circunferência de casca rugosa do género daquela posta em frente. Porém, foi a primeira vez que foi sentida, sem ser vista. De uma perspetiva tátil, não foi difícil, com toda a certeza, identificar aquilo que estava diante dos olhos. Como já disse, a casca, rugosa (porém macia), familiar. A sua forma esférica... Um topo com uma pequena estrutura com uma textura mais áspera, e, se desenhássemos uma linha que atravessasse o objeto, uma linha reta, capazes seriamos de sentir um "fim", como que um pequeno olho, no fundo do objeto. Mas o tato não é suficiente, nunca é. Tal como quando pegamos numa flor para a apreciar, cheiramos, o mesmo se sucedeu com o objeto esférico. Inspirando o ar envolvente do objeto, não é inalado qualquer cheiro. Pelo menos, eu, não consegui. Apenas após ser cravada uma unha foi possível sentir o intenso odor a citrino. E que bem que cheira. Uma corrente de sabores e delícias atravessou-se no meu pensamento. "Conheço-te". E Até que foi concedido o dom da visão de novo. Ora ali estava ela. A laranja. A minha laranja. As laranjas dos outros - à frente dos outros. Com a sua cor habitual, dando sinal de estar madura, criando água na boca e apetite. A apreciação daquela laranja, como se fosse a primeira a ser avistada, tocada, sentida, em toda a minha vida foi crucial. E, como se não conhecesse NADA sobre a espécie, a faca cortou. Deslizou desde a casca dura, atravessou o lençol vitamínico branco, até à columela. Duas, três, quatro partes (talvez cinco) foram formadas a partir de o que costumava ser uma laranja. Caíram inúmeras gotas de sumo de laranja no prato de plástico branco. Que bem que cheirava. Cheirava a vida, a repetidos pôr-do-sol na praia, ao lanche em casa da avó. E o sabor... O sabor! Doce, - o que não é do meu especial agrado, prefiro quando são amargas, - suculenta laranja. Fresca. Refrescante, aliás. A vontade de a devorar por completo foi imediata. O sabor que permanece na língua durante alguns minutos após a ingestão dos gomos revitaliza. As vitaminas implantam-se nas células e no sangue e toda a doçura dos gomos traz satisfação a todo o corpo. Soube bem. Sabe bem. 
A minha laranja. A minha "primeira " laranja. Grafiticante. Rejuvenescedor. 
Mas agora pergunto-me... Porquê uma laranja? Sei o que sinto nela, as saudades que me traz, - a vontade que me dá de voltar atrás no tempo, e aproveitar os lanchinhos da avó enquanto podia. Mas quem está ao meu lado não sente a minha saudade. Então sentem o quê? A minha laranja é diferente da deles. Da dos outros. Da de todos. Vejo-a eu, à minha laranja, da minha forma mas mesmo aqueles que olharem para a minha laranja não verão o mesmo que eu. Trabalhar com uma laranja requer, para além de uma profunda investigação e introspeção, capacidade de ver para além do que se vê. Para além da laranja, como objeto. Então, o que é a minha laranja, afinal?


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