Lisbon Design Meetings - II Encontros (especificação da palestra de Viviana Narotzky)

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Apercebo-me agora que "design", parecendo que tem um significado tão concreto, cada vez se mostra mais aberto a definições.
A palestra de Viviana Narotzky (Presidente da Associação de Design Industrial de Barcelona), foi uma esplêndida tentativa de compreensão e explicação disso mesmo. Começando por referir de que o design já não é o que outrora era (mecanismos, standards, modernizações e verdades universais - sendo que o que não seguisse certos modelos, não seria considerado um objeto de design. Por exemplo, se o célebre e famoso conceito de Less is more (menos é mais) ou se o conceito de Truth to materials is good (a veracidade dos materiais é boa) não fossem seguidos, seriam considerados criações anormais. Não seriam vistas como objetos minimamente estéticos, nem seriam colocados na categoria de design (fosse do que fosse). Mas como é óbvio, essa era terminou com uma pequena grande revolução no mundo artístico, na segunda metade so século XX, quando os designers começam a questionar essas, por assim dizer, "regras" do design. O que é que mudou então? Comecemos por reparar que a quantidade de coisas brilhantes criadas no mundo sofreu um aumento gigantesco, o que gerou um certo afogamento nessas mesmas peças criadas e, consequentemente, o consumo excessivo. Mas não termina aí. O consumo excessivo das inúmeras e intermináveis obras de design fez com que houvesse uma significativa perda no que toca à relação que o ser humano estabelecia com as coisas que criava/usava. Deixou-se de se querer saber, de se importar com aquilo que se manuseava. Acabou o facto de se criar uma ligação sentimental com os objetos. O que gerou um enormíssimo desperdício. 

Breakdown, de Michael Landy

Mas não foi apenas isso que mudou. A qualidade das criações também sofreu uma alteração, no sentido em que a ideia de perfeição caiu. No início da década de 90, há uma exploração da imperfeição. Há uma queda na importância da verdade, da realidade. E um significativo atributo de insignificância no que afeta a representação da beleza real e natural do existente. Porém, nem tudo soa tão insatisfatório. É verdade que, nesta altura, se começou a trabalhar com a reutilização de materiais nas obras de design e, com isso, houve um aumento na produção artesanal (porém, paradoxalmente, com as produções em série, se reproduzissem as imperfeições do original, fazendo com que houvesse uma significativa perda de singularidade). 
Por último, como mudança, é imprescindível acrescentar o tópico da acessibilidade. No more black boxes. "If you don't open it, you don't own it" (se não o consegues/podes abrir, não te pertence). Este conceito vem associado ao Maker's Bill Of Rights, e à ideia de que, se não é possível aceder ao interior de algo, à sua natureza e compreensão, não podemos reclamar tal objeto como nosso, dado que não é possível ser-se dono de algo sem que se o conheça, sem que se o compreenda. A isto vem acrescentado o início da crença na ideia de que é melhor reparar do que reciclar (pois assim não há desperdício, nada se deita fora), visto que nada se mantém novo (pode-se, portanto, esquecer a perfeição). 

Repair Manifesto, The Maker's Bill Of Rights & The Fixer's Manifesto

Repairing kit - Japão
Projeto Fixperts: http://fixperts.org/

Ideias geradas através dos conceitos de reparação mencionados no texto acima escrito

Mas e agora? Que se anda a passar agora? Hoje em dia correm variadíssimos conceitos, de certa forma revolucionários como o fabrico distribuído (ver imagem "Redes - trabalho de Paul Baran" - em baixo, como referência); o design paramétrico (design através de algoritmos - no meio do artesanato e da produção em massa, não sendo nenhuma delas especificamente) - ver http://tsangg.com/2014/10/29/mit-media-lab-gets-a-transforming-logo-courtesy-of-pentagram/ como referência; crowdfunding (fundação de projetos para angariar inúmeros pequenos montantes de dinheiro, de uma grande quantidade de pessoas - por exemplo o Kickstarterhttps://www.kickstarter.com/); e por último o design aberto e colaborativo (open and collaborative design).

Redes - trabalho de Paul Baran

The Open Design Manifesto, de Ronen Kadushin


Para finalizar, foi colocada a questão de o que é afinal o design? Chegou-se à conclusão de que o design não pode ser classificado com apenas uma definição. Na sua opinião, Viviana diz que a definição de design passa pelo facto de ser um sistema aberto. É adaptável às coisas que precisamos de usar quando pretendemos expressar-nos.
A minha versão não varia muito. Acredito que haja muito que respeitar no que toca ao design, não regras propriamente ditas, mas certos valores. Mas, ao mesmo tempo, acredito que o design existe como via de expressão. Através dele podemos mostrar ao mundo o que pensamos, transmitir as nossas ideias, expelir criatividade e, acima de tudo, contribuir para a evolução do design em si.
Deste modo termino a minha análise à palestra que mais gostei dos segundos encontros de design, com enorme gratidão e satisfação. Abriram-se novos horizontes e nasceram novas ideias. 
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