Agnés Varda (cineasta belga, que trata de assuntos ligados ao feminismo, à realidade do documentário e ao comentário social) apresenta com este filme um íntimo olhar sobre a vida e o mundo de coletores de espigas depois das colheitas (os respigadores) inspirada numa famosa obra de Millet (abaixo apresentada).
Esta visão real do que era um respigador ou uma respigadora antigamente é contínua nos dias de hoje. Atualmente, um respigador é aquele que recolhe os produtos que são deitados fora pela indústria, pelo consumo da população e da sociedade, é aquele que vive da recuperação dos desperdícios que os outros não querem ou deixam para trás. Neste elemento, a realizadora é a respigadora, pelo que se assume como uma recuperadora das imagens que o resto do mundo não quer ver nem retratar, pelo que desse modo as deixam para trás. Mais profundamente, quererá Agnés mostrar que todos nós somos respigadores da nossa própria existência? Não estaremos todos nós todos os dias a querer tentar mostrar o que os outros não mostram, para manter o equilíbrio?
Neste filme, a realizadora recolhe depoimentos sobre os respigadores, amplificando o sentido do ato de respigar e elevando-o ao nível de outros contextos, como os mais atuais que já referi, mas concentra-se, digamos, naqueles que utilizam os materiais das ruas para futura criação artística. O objetivo da realizadora não será propriamente imortalizar os respigadores da atualidade, mas sim procurar os motivos das decisões dos mesmos, que os movem a eles aos seus interesses, como por exemplo, um famoso chefe que cuidadosamente examina os desperdícios.
Entre a cidade e o campo, poderemos ver chocantes momentos dos por obrigação desordenados, o que em consequência eleva este filme à categoria de crónica social contemporânea que mostra problemas sociais graves e atuais. Paralelamente à demonstração de exemplos que vão para além do respigar financeiro (respigadores para uso ºpróprio, como a decoração da própria habitação), a cineasta belga apresenta um autorretrato, uma reflexão sobre a sua visão dos tempos, exibindo a sua velhice, fazendo frente à vida efémera, reforçando a sua ideia de que “por enquanto, temos de nos fazer à estrada”. No desenrolar do documentário, é visível a sensibilidade de Agnés perante os respigadores e as suas vidas, pretendendo então uma posterior consciencialização dos espetadores e uma posterior introspeção sobre a fragilidade do ser humano e das condições que a vida nos propõe, sobre a liberdade e a ação sobre a celebração da vida.
Assim, e com as cores fortes da sua primeira experimentação da câmara digital, Varda constrói então um retrato de França íntimo e moderno extremamente impressionante.
Opinião de João Lopes (crítico): http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=714504
(obra de Jean-François Millet)




e o que daqui resulta para a melhor compreensão do que estamos a desenvolver com o trabalho do bairro? ficou esquecida essa parte. e o filme, porque a senhora agnès é do género feminino, é LA glaneuse
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