O testemunho mais antigo do bairro.

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Tal como nos tinha sido sugerido pelos proprietários de um café do bairro, fomos a casa da D. Maria Helena Leite. Esta senhora tem 84 anos, vive no bairro há 80, e soube dizer-nos variadas curiosidades acerca do Arco do Cego. 
A construção do bairro foi iniciada pelo engenheiro António José de Almeida, cuja estátua se encontra na rotunda à entrada do Arco do Cego, e terminada já no tempo de Salazar e do Estado Novo. O bairro, já terminado, foi distribuído por diferentes Sindicatos, que por sua vez entregavam moradias aos seus associados. Ainda assim, as casas só se tornavam propriedade dos seus moradores passado 25 anos. “O meu pai teve a sorte de apanhar uma casita muito modesta, esta mesmo onde ainda vivo hoje. Chegámos a pagar nessa altura 175 escudos por mês.” A D. Mª Helena explicou-nos ainda que na altura havia um seguro de vida que inibia uma mulher de continuar a pagar a renda da casa, caso o seu marido falecesse. Nesta situação a casa ficaria automaticamente em posse dela. Já se se tratasse de um divórcio, tanto o homem como a mulher não tinham mais permissão para habitar aquela casa, tendo ambos de sair. 
Relativamente à Fábrica de Cerâmica Lusitânia, a D. MªHelena contou-nos que a localização deveu-se ao facto de o principal trabalho daquela indústria ter sido, naquele tempo, a produção de tijolo para a construção da Praça de Touros do Campo Pequeno. A Avenida João XXI era ainda propriedade desta fábrica.
Sobre o bairro, a idosa revelou-nos a sua paixão pelo local, viveu lá toda a sua vida e é lá que deseja morrer. No entanto, admite que hoje em dia está muito diferente do que era antes. Antigamente havia muito mais pessoas na rua, principalmente crianças a brincar. “O sossego foi-se. E o espírito de família morreu, agora somos estranhos.”
Descobrimos que há muitos anos havia um fiscal no bairro que vigiava e impedia situações de conflito e “zaragatas". Passavam carroças no bairro todos os dias, como por exemplo do padeiro e da recolha de lixo. “Era assim a vida, quase campestre.”

Curiosidade ainda maior foi o encanto desta senhora ao saber que éramos estudantes de Belas-Artes, pois ela mesma é pintora, tendo estudado Pintura na Escola António Arroio. Soubemos que é uma amante da arte e exerceu a sua profissão de artista, embora atualmente pinte muito pouco. 


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