"The belly of an architect", de Peter Greenaway

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Mais uma grande obra de Peter Greenaway. Começando pela escolha perfeita do espaço em que o filme decorre (Itália, Roma) e acabando na morte do arquiteto, admito que este filme me cativou, do início ao fim. 
Em "as cólicas de um arquiteto", está retratada, na minha opinião, de uma maneira brilhante, o sofrimento de um artista quando se vê encurralado em trabalhos, enquanto que conflitos de saúde e emocionais se atravessam no seu caminho. Penso que todos nós, artistas ou aspirantes a artistas, já sentimos na pele a pressão dos prazos alinhada com o resto da nossa vida. 
A involvência do protagonista com o seu trabalho (a exposição), leva-o a isolar-se do mundo, e a entrar num outro, um só seu, meio psicótico. Contra tudo e contra todos, sendo que todos (incluindo a sua mulher) o criticavam, pois não permitiam que as suas crenças e inspirações (por exemplo, artistas passados) se libertassem, em conjunto com ele, acusavam-no de estar a viver a vida de um arquiteto que não existira, afirmando até que Boullée é um fruto da sua imaginação, e estavam constantemente a fazer notar o seu excesso de peso, a largura da sua cintura, Kracklite continuou fiel a si, às suas vontades e às suas preocupações. Ficou, como (talvez) fosse de esperar, louco. Perdeu, então, a vida que levava. A sua mulher revelou-se infiel (porém, mais tarde, ele também), mesmo sabendo que carregava um filho fruto do casamento, perdeu os investimentos do banco para a sua exposição (com a justificação de que o arquiteto não seria de confiança, devido à sua doença - cancro do estômago) e, o que se nota ao longo do filme mas só se confirma no final, o mérito para a realização dos projetos e da exibição que construíra foram-lhe todos roubados. Nem um único elogio, na inauguração, nem uma menção do seu nome foi ouvida. Pode-se dizer que os seus colegas de trabalho lhe roubaram o crédito. Conseguiram, portanto o que queriam.
O estado de saúde do protagonista levou-o ao extremo alargamento do seu conhecimento, pelo que ficou a saber imenso sobre estômagos, vidas de arquitetos (e outros artistas). Podemos considerar isso um ponto positivo, apesar de tal facto o ter levado à insanidade, à psicose.
É importante fazer também uma pequena referência à ligação deste filme com o projeto deste semestre (subentenda-se, a laranja). Acontece que, quando o arquiteto estava perante a confirmação de que a sua mulher o andava a trair com um dos colegas de investimentos (ladrão também), uma criança trocou uma laranja que trazia por um objeto que Kracklite levava nas mãos. Uns minutos mais tardes, o protagonista menciona um dos maiores benefícios do fruto, a vitamina C, que é extremamente boa para a saúde. Diz, se não estou em erro, que "é suposto fazer-nos saudável" e, sendo que ele estava doente (já tendo noção do seu estado), porque não comer uma laranja para melhorar a sua situação? Já que nada mais parecia ajudar...
Não apenas a doença do protagonista, como também a perda da sua mulher e filho e o constante não reconhecimento do seu trabalho levam-nos ao dramático desfecho deste filme. Na minha mais sincera opinião, não vejo outra maneira de por um fim ao filme, para além do suicídio do artista. A verdade é que, mais tarde do que cedo, o protagonista morreria, mas sabendo que o sofrimento psicológico e emocional, juntamente com a pressão do mundo sobre os seus ombros (e barriga) era gigantesca, percebe-se a justificação da sua ação. 
Considero, e para finalizar, importante fazer uma breve anotação acerca da banda sonora, que eu considero estupenda. O drama de um filme deve sempre ter uma incidência maior na música que o desenha. Ora, é verdade que, nos momentos em que o filme mais precisava, a banda sonora esteve à altura. Arrepiou, confortou, entristeceu, chocou e emocionou. Excelente. 
Para concluir, devo dizer que estou bastante agradada com o filme. Mais uma vez, alarguei os meus horizontes e a minha curiosidade (ambos aspetos muito importantes) e apreendi novas perspetivas sobre a vida e arte. 
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