Envolvimento humano era o que procurávamos da ultima vez que visitamos o bairro do arco do cego. A verdade é que tínhamos chegado a um impasse por não encontrarmos gente no bairro. Havia poucas pessoas, poucas características singulares que caracterizassem o bairro. Considerámos que se tratava de um bairro demasiado quieto, calmo, conservador, sem inquietações nem agitações. Elementos que caracterizam tradicionalmente um bairro não existem simplesmente no Arco do Cego, tais como clubes, discussões em comunidade, festas populares, diferenças sociais, lojas, tascas, convívio entre idosos, adultos e jovens ao fim da tarde e à noite. Notámos uma falta de proximidade entre os moradores do bairro: alguns já mais velhos conhecem-se entre si, mas uma vez que se trata de um bairro já antigo, muitos dos habitantes iniciais foram falecendo e deixaram a casa a filhos e netos ou venderam-na, sendo que os novos proprietários vão deixando de conhecer a vizinhança e assim se foi criando uma distancia maior ao longo dos anos. A verdade é que o bairro do arco do cego, tendo tanto potencial, acaba por ser uma zona plana e isolada no meio duma cidade tão dinâmica. De modo a confirmar rejeitar esta opinião que tínhamos do bairro, entrevistamos várias pessoas de diferentes idades, moradores oi trabalhadores do arco do Cego.
Miguel Nunes, estudante do Instituto Superior Técnico, tem 18 anos e mora perto do bairro do Arco do Cego. Afirma que é uma boa zona para morar, calma e onde há todos os serviços necessários nas proximidades. O ponto alto referido foi o Jardim do Arco do Cego e os cafés que lhe são próximos, que proporcionam aos jovens boas tardes de convívio e de cerveja barata.
(referência ao café no post O Café Barrosã)
Na rua em frente ao liceu encontrámos Margarida, uma senhora muito simpática que embora não habite nem frequente muito o bairro, estudou no liceu D. Filipa, bem como os seus filhos e, neste momento, os netos. Nota no bairro população muito envelhecida, mas ao mesmo tempo uma tentativa de renovação, presente nas casas remodeladas e pintadas de novo. Referiu o sossego e calma, e disse ainda que pensa tratar-se de um bairro muito familiar onde as pessoas se conhecem. Também dentro do próprio liceu o ambiente é tranquilo, a escola é segura também devido à ação da polícia, que através das visitas frequentes ao bairro mantém a calma e a estabilidade.
Maria Luísa é uma senhora de 86 anos que vive temporariamente no bairro. A sua casa é em Trás-os-Montes mas uma vez que tem familiares em Lisboa, mais concretamente uma sobrinha que mora precisamente no Arco do Cego, costuma passar algumas temporadas na capital. Gosta de viver cá tal como a sobrinha e o resto da família. Admira muito o traçado das casas e a renovação que os arquitetos, a “Naná” e o seu marido Manuel, fizeram em alguns edifícios, mantendo a configuração original. Maria Luísa vem do Norte, onde as crianças brincam na rua até à hora de jantar, até os pais sairem para os chamar para a mesa. No bairro do arco do cego costumava ser assim, referiu, mas hoje em dia há sossego a mais, "já nem passam os aviões que antigamente se ouviam tão bem". O bairro está muito envelhecido de pessoas, não de aspeto, as casas foram pintadas de cores diversas e isso traz muita alegria às ruas. Esta idosa contou-nos ainda um pouco da sua vida, dos seus gostos, da sua saúde e falta dela, e acima de tudo da sua admiração pelos jovens: “Os jovens agora são muito diferentes do que os pintam, fala-se mal da juventude mas todos estão sempre prontos a ajudar.”
Numa pequena sapataria falámos com Fernando Pereira, o técnico de calçado responsável pela loja. Não vive no Arco do Cego mas gosta muito de trabalhar e de trabalhar no bairro. Contou-nos que os moradores são tranquilos, dá-se bem com as pessoas, mantém um bom relacionamento com os frequentadores do seu estabelecimento. Referiu ainda que é um bairro um pouco morto, não há muito envolvimento, convívio, nem dinamização de atividades, a população está envelhecida e não saem muito de casa. Mas por outro lado há alguns jovens devido à escola. Apesar de muita gente se queixar dos adolescentes, "da agitação e dos copos”, são eles que dão vida ao bairro. Se pudesse mudar algo neste local seria a existência de mais comércio, mais lojas e se calhar até um centro comercial.
Uma outra perspetiva acerca do bairro foi-nos dada por Cláudia Oliveira, não vive aqui mas desloca-se até ao Arco do Cego todos os dias, há 20 anos, para trabalhar num escritório na Avenida Magalhães Lima. “O bairro é bem fixe, tem uma ótima localização”. Mencionou a calma e a tranquilidade, disse que a população estava ja envelhecida e que durante a semana é um local agradável mas ao fim de semana e à noite é demasiado deserto. Interrogamos-lhe relativamente à falta de comércio, mas respondeu-nos convictamente que não era necessário mais nada porque todos os serviços e estabelecimentos mais importantes e precisos se encontravam muito perto, mas fora, do bairro.












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